Matéria-Prima

Se tem um presente que eu gosto de ganhar é matéria-prima para que eu mesma  possa construir o presente. A sensação de inventar alguma coisa que não existia antes é um vício delicioso e é para estes momentos criativos que eu vivo todos os outros. Ter um filho é o ápice destes momentos: inventar gente, uau! É mesmo algo fantástico. Mas quando o neném ainda é pequeno, todas as suas outras atividades criativas vão para o ralo. Seu tempo livre reduz drasticamente e quando se está junto com o neném, não dá para manusear facas, estiletes, tesouras, cola, papel, prego, martelo, nada. Tudo o neném quer enfiar a mão, quer botar na boca, quer participar. Por isso que não posso descrever a felicidade quando ganhei este presente do nosso amigo Fábio. Um kit com lacres, dobradiças e serra para fazer objetos com o lixo reciclável. Foi a primeira vez que consegui construir alguma coisa junto com o Theo. Foram duas horas maravilhosas, nós dois concentrados na tarefa de transformar uma caixa vazia de fralda Pampers em algo mais interessante. Como o Theo está na fase de encaixar coisas, obsessivo em enfiar objetos em qualquer buraquinho que aparece na frente, fomos abrindo círculos e quadrados na caixa. A serra que vem no kit é de plástico, e só faz mal ao papelão. Daí viramos a caixa do avesso e fomos fixando o que virou piso, telhado e paredes. Aha! Uma casa, cheia de buracos, com telhado reversível para tirar tudo que foi arremessado dentro. Um pouquinho de desenho e tá feito o brinquedo da semana. Quando o Theo enjoar a gente desmancha e faz outro, todos os encaixes e fixadores do kit são reversíveis, portanto, podem ser usados, montados e desmontados quantas vezes a sua imaginaçnao permitir. Já vejo carros, robôs, bonecos e cidades vindo por aí. Obrigada Fábio por este presente infinito.

Porta e janela abrem e viram buracos para jogar objetos dentro.

Teto solar para tirar tudo de dentro e começar tudo de novo.

No site da makedo tem uma loja online, eles entregam no Brasil e também uma galeria de fotos inspiracional, na qual consumidores do mundo todo compartilham sua criação. Vale muito a pena.

Na Itália não há mosquitos?

musquiteiro para quarto sem berço

Queria que Maria Montessori ainda estivesse viva pra contar como faz para adaptar seu quarto sem berço para os trópicos. Na Itália certamente não havia mosquitos. Se já é complicado convencer seu grupo afetivo sobre a decisão do  colchão no chão, o que dizer quando o bebê acorda todo picado depois da primeira noite de verão de sua vida?

Foí aí que minha tia doou um mosquiteiro antigo, tradicional, estruturado com um bordador circular. Funcionou um tempo, mas quando o neném ganhou mobilidade, chegava a ser engraçado a imagem de manhã: o Theo capturado naquela rede branca, e a gente que nem pescador, feito gordo e o magro desengonçados, tentando resgatar o filhote daqueles metros de tule.

Então, depois de queimar mais alguns neurônios, construímos uma estrutura simples: um retângulo feito de ripas de madeira de 1cm e triângulos de compensado da mesma espessura, com preguinhos e cola de madeira para sustentar. Fizemos do tamanho do colchão do Theo. Para fixar, prendedores de papel, barbante e prego na parede. Na quina que fica em balanço, o barbante foi fixado no teto. Para cobrir, metros e metros de tule branco emendados, e um viés azul na borda para arrematar.

Funcionou. Um prendedor de varal ajuda na hora que queremos entrar e sair da cabana.  De vez em quando o Theo ainda fica preso, não chora, é mais engraçado do que trágico, mas a cada dia está mais esperto para se livrar da armadilha. E sei que a estrutura ainda vai dar muito pano pra manga para as brincadeiras de cabana, vamos esperar ele crescer pra ver.

musquiteiro neném entrar e sair

Na mídia

O IG fez uma reportagem bacana sobre quartos sem berço e o método Montessori. Veja aqui. Fotografaram o quarto de duas crianças, o do Theo, e o do Benjamim, filho da Luíza Diener, autora do blog  Potencial Gestante. Aliás, ela cunhou o termo: Movimento Sem Berço. Gostei. Parece que o movimento está crescendo.

Para saber mais sobre o método Montessori indico:

– Grupo de pais Montessori no Facebook

– Blog How we Montessori de Kylie d’Alton, mãe de dois filhos, vive na Austrália. Foi onde me apaixonei pelo método Montessori. Com muitas fotos e posts quase diários. Tem toda a história do seu filho mais novo com o método Montessori, catalogado por idade. Genial

– Blog Ici Montessori. Sob a alcunha de Neptune, esta mãe de três filhos no Canadá também é ótima fotógrafa e escritora. Vale a pena.

– Lar Montessori. Em português! O autor é o Gabriel Salomão, ex-aluno da escola Prima-Montessori. Ele traduz vários textos da própria Maria Montessori e outros ligados  ao tema. Muito bom.

Siga este bebê!

Outro dia li aqui um depoimento de uma moça queniana que, depois de passar a juventude na Inglaterra, voltou para sua terra natal para ter seu neném perto da família. Ela estava com quatro meses de gestação e já tinha lido pilhas de livro sobre como criar seu filho.  Ao conversar sobre esta preparação toda com sua avó, esta respondeu com tom ironico: – a única coisa você tem que que ler é o seu bebê.

Taí, de tudo que eu li na minha preparação, o mandamento que mais lateja na minha cabeça é a frase de Maria Montessori: FOLLOW YOUR CHILD.  Siga sua criança. Observe muito, perceba seu filho, e tente proporcionar atividades que façam os pequenos vibrarem.

Com oito meses o Theo aprendeu a escalar o sofá, soltou urros de alegria e começou a querer se levantar apoiando-se em tudo o que via na frente, inclusive a gente. Daí começamos a botar pilha. Algumas mudanças, como a barra no corredor totalmente “faça você mesmo” e o móvel na altura do Theo em seu quarto eu já mostrei neste post.

Mas depois veio a idéia de ficar de pé também na hora do banho! Aposentamos o banheirão alto, de fundo mole e instalamos uma barra na área do chuveiro. Combinado com uma simples banheirinha de plástico, o banho, que andava meio chato, virou a atividade mais legal do dia. Sucesso total.

A fora isso, deixamos ele fazer de suporte tudo o que ele foi encontrando no caminho:

As esculturas do Antony Gormley no Centro Cultural Banco do Brasil:

O emaranhado de cadeiras na casa da vovó:

E repetindo a foto do post anterior, a barra de segurança do mirante da nossa rua.

E de repente me vejo contente ao repetir um legado dos meus pais, que nos deram uma educação mais que libertária: nos ajudaram a identificar nossos gostos e não pouparam energia para nos transformar, eu e meu irmão, em nós mesmos.

De pé

O último mês foi estranho, o ar andou esquisito e o tempo bipolar. As viroses invadiram a casa: um resfriado eterno insistiu em atrapalhar o sono do Theo, depois atacaram o intestino do bichinho e depois o meu também. Fiquei sem forças. A história de morar longe da família fez do meu coração um picadinho. Minha mãe ainda mais longe, trabalhando em Frankfurt e o marido viajando em Manaus e Porto Alegre. Sete dias de solidão do Apoque ao Chuí. Semana Hard Times. Agora tá tudo bem. Theo completou nove meses, o tempo de uma gestação. Tá novinho em folha e ainda de saldo, desenvolveu a maravilhosa habilidade de ficar de pé. Ele caiu incontáveis vezes, nariz, orelha, cucuruco: todos ao chão. Mas não parou de tentar, e escalou absolutamente tudo o que viu na frente. Sobrevivemos, nenhum nariz quebrado e as pernas mais fortes. Continuamos…

6 meses

Hoje revi um vídeo do Theo do dia que ele aprendeu a rastejar, ele tinha seis meses e foi sem dúvida o dia mais feliz de sua pequenina e grandiosa existência. Está aí registrado o ápice de meses e meses de trabalho duro: não é mole sustentar uma cabeça que deve pesar 50% do seu peso,  fortalecer músculos que vieram todos molinhos ao mundo e coordenar dois braços e duas pernas ao mesmo tempo. Ah seu eu tivesse um quinto desta paciência e força de vontade.

Mutações

Todo mundo me diz pra aproveitar porque passa rápido. Fico pensando se tempo de bebê é diferente, se eles roubam alguns segundos dos minuto, se pulam as horas ímpares ou se turbinam a corda dos ponteiros. Pode ser que sim, vindo de bebês não é de se duvidar, eles tem lá certos poderes mágicos. Vejam o Theo: foi ontem que aprendeu a rastejar, tinha seis meses. Agora nem completou oito e já quer ficar de pé, ensaiando com as pernas os primeiros passos. Poderes mágicos, certamente. Talvez esteja aí a impressão da velocidade do tempo, na estoneante capacidade que os bebês têm de mudar, de aprender, e de mudar de novo. Eles fazem uma revolução por semana, brincando. E aí vem a delícia e a dificuldade de ser pai e mãe, ser capaz de ir mudando junto, nesta velocidade louca. Por isso é que ser mãe cansa: quando a gente estabelece um esquema que funciona para o filhote, duas semanas depois ele já está obsoleto. Aí é botar a cuca pra funcionar e desapegar. Nesta semana que passou foram dias de ir atrás dos materiais certos e botar as mãos à obra. O mais difícil foi manter o neném longe da furadeira.

As últimas mutações aqui de casa:

1. O corredor que já era nossa biblioteca e galeria de arte (o apê tem 62m2 e a gente se vira nos trinta pra fazer caber tudo que a gente ama), é agora também área de exercício. Ganhou uma barra para o Theo brincar, do tamanho da mãozinha dele. Ele segura firme e pode andar que nem caranguejo de um lado pro outro. Foi o projeto mais simples e barato da casa: dois suportes de cortina, uma barra de madeira da loja de material de construções, quatro furos na parede, e barbante pra fixar a barra no suporte. Tá feito.

2.  O trocador estava virando um lugar perigoso: era botar o Theo lá pra ele querer virar, engatinhar e sair rolando. Trocar fralda tinha virado missão impossível. Agora a gente troca o Theo no colchãozinho no chão. Ainda é difícil, mas agora dá pra deixar ele solto e botar a fralda com ele rastejando. O trocador se transformou então em uma mesa e uma estante, numa altura bacana pro Theo se apoiar e praticar suas novas conquistas. O móvel mutante foi desenhado com a ajuda do meu pai, e construído por ele. É tão raro que as teorias que tecemos antes do neném chegar dêem certo na prática, que estamos muito felizes que o Theo tenha adorado a idéia.