Tente outra vez

Eu fico chateada com o facebook quando olho pela janela e, vendo o sol se por, me dou conta de que perdi a hora mais linda do dia na frente da tela do computador. Mas quando no meio de tantas horas desperdiçadas a gente acha afetos que estavam escondidos na memória, eu perdoo e rio por dentro. Estes dias dei de cara no face com uma amiga que andou comigo um bom bocado da minha última infância. Ela morava numa casa, isto, pra minha vida de apartamento, já era pura fantasia. O pai dela tinha ganhado na loteria há muito tempo, por isso a casa, o piano, o roupão diário, o copo de uísque. Na casa, meio escondida pelo mato, tinha um quarto da bagunça. Lá as crianças governavam e davam as ordens. Decidiam se naquela parede era para desenhar ou para colar quadrinhos, se os jogos iam ficar deste ou daquele lado. A gente tinha afenidades deliciosas: adoração pelos Saltimbancos de Chico Buarque (lembro da gente tentando decorar o pedaço mais pedreira: o fardo pesado que o jumento carrega que vai se somando verso a verso: o pão, a farinha, feijão carne-seca, limão, mexerica, mamão, melancia…), os Beatles (a gente passava horas tentando ensinar o irmão a destinguir o John Lennon do Paul Mcartney, o Ringo do George Harrison na capa do vinil Let it Be. Ele nunca conseguiu, pra ele todo mundo era o John Lennon), o ce-dê-êfismo (a gente era as mais nerds da turma e discutíamos matemática). Mas um dia a gente muda de colégio, muda de fase, muda de cidade e a distância e o tempo nos separa. Fica o calor das afinidades e a senha do email que ainda é o velho telefone fixo da sua casa. Aí é que entra o face, depois de tantos anos sem se ver, li na página da antiga amiga, a frase que virou meu mantra diário:

Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.

(Samuel Becket)

Nesta via crucis que virou a amamentação do Theo, com as dificuldades que teimam em ir embora, o que tem me segurado tem sido isso: levantar todo dia com o sol, lembrar do velho amigo jumento do Chico carregando aquela carga toda, cantarolar o All you need is Love do John e finalmente entoar a frase que minha amiga pescou com tanta sabedoria. E aí começar tudo de novo.

Licenças

Quando a gente ganha o direito à licença maternidade a gente perde na mesma hora  a licença de andar-por-aí-ao-léu, a licença chegar-na-praia-depois-das-dez, a licença dormir-no-vagão-e-perder-a estação-do-metrô, a licença sentar-no-banco-da-praça-e-ficar-desenhando-a-vida-passar. Não vai soar muito bem, mas os dois primeiros meses de Theo tiveram jeitinho de prisão domiciliar, saída mesmo só para banho de sol no quarteirão.  A sorte é que antes do Theo chegar a gente deu um talento aqui no ninho, pintei, arranquei um tanto de quadro da parede, troquei de sofá (aliás, acho que ter um sofá verdadeiramente confortável é sinal de que você finalmente virou gente grande), plantei manjericão, tomilho e hortelã. São tempos de ficar em casa. Longos dias e noites em vigília. Mas aí um dia você acorda incrivelmente bem disposta porque dormiu quatro horas seguidas, arma o carrinho de bebê que você ainda não sabe mexer direito, desce a imensa ladeira que é toda a sua rua e chega sã e salva no sábado de manhã da feira mais gostosa do bairro. Compra peixe, duas mangas come um pastel de queijo e toma uma água de côco, e a sensação que fica é que você foi a Paris de tão fresca e renovada que sua cuca volta pra casa. E com a certeza que a única licença que não dá para abrir nestes tempos é a licença poética.

De mal com a natureza

A natureza me passou uma rasteira. Tinha deixado tudo nas mãos dela: gravidez (tranquila, ativa, quase sem exames) e parto (sem anestesia, sem medo, índio, de cócoras). Era justo então que confiasse a ela também a amamentação. – Livre demanda, a natureza dizia. Então o Theo passava horas e horas e horas no meu peito. E eu achando que a natureza estava cuidando de tudo. Até que sete dias depois do nascimento fomos a primeira consulta do pediatra, primeira pesagem, eu estava lépida e feliz , esperando a confirmação de que a natureza tinha feito o melhor trabalho do mundo. Mas quando o Theo subiu na balança a mãe feliz murchou. Ele não tinha recuperado o peso do parto, não tinha recuperado o peso da alta e ainda tinha perdido mais um tanto. Eu fiquei preocupada, mas o medico também confiava na natureza e continuamos deixando tudo na mão dela. Fomos em outro medico, pesamos de novo e o Theo um pouquinho mais magro. Liguei chorando para minha mãe, que ligou para o médico que cuidou de mim e ele falou: – Bebê só pode perder peso até o quinto dia, tá na hora de dar leite em pó para seu neto. Eu briguei com a mãe, falei mal do médico, eu não queria interferir na natureza.

Uma semana depois e Theo estava um magriça. A pesagem nova foi destruidora. Ele tinha perdido 500 gramas desde o nascimento. Rasteira. O diagnostico é que o Theo embora ficasse muito tempo no peito, sugava de verdade muito pouco, chupetava muito e dormia mais um tanto. Meu leite diminuiu, ele emagreceu. Comecei a dar o Nan (o leite da nestlé para bebês), me doeu tanto que era como se eu não tivesse mais peito. Comecei também a ordenhar meu leite depois que ele mamava, na busca de alguns mililitros que ele tivesse deixado para trás. No primeiro dia com a bomba elétrica na potência máxima, espremi a grande quantidade de 8ml. Não enchia uma colher de café. Me senti uma mãe murcha, a única no universo que não conseguiu dar de comer ao filho. Foi a época que eu produzi mais lágrimas do que leite.

Mas depois de uma semana o Theo começou a engordar, perdeu o ar de desnutrido e começou a mamar melhor, meu peito começou a produzir mais leite e eu embora exausta, esgotada, falida, ficava contente quando tirava 30 ml de leite e batia o recorde de extração. Achava que um dias as coisas iam se acertar, mais duas semaninhas e estaria tudo resolvido, voltaria para as mãos da natureza.

Claro que não foram duas semanas. Trocamos mais uma vez de medico, trocamos o jeito de dar o leite (não podíamos usar a mamadeira pois corríamos o risco do Theo nunca mais querer o peito). Demos o leite de seringa, no copinho, de canudinho acoplado no bico do peito. Aprendemos todas estas manhas com visitas semanais ao banco de leite do Instituto Fernandes Figueira, o lugar que aprendi além das técnicas, que eu não era a única mãe do universo que tinha problemas para amamentar o filho, só no Rio de Janeiro, na manhã de terça eram umas dez mulheres…

As duas semanas se passaram e eu ainda precisava do Nan. Eu quis bater na natureza! Fiquei emputecida que ela tinha descuidado de mim numa hora tão importante. Ainda chorava pelos cantos que nem uma Maria do Bairro de novela mexicana.

Hoje o Theo está com dois meses e meio. Quando eu lia nos sites sobre amamentação que toda mulher é capaz de produzir o leite necessário para o seu filho eu não podia acreditar que comigo ia também rolar. Eu estava mesmo de mal com a natureza. Mas a conta é simples, a gente produz o tanto que o bebê suga. Por isso eu ainda tenho que ordenhar depois de todas as mamadas, é o jeito de enganar o cérebro dizendo a ele que tem um bebê sugando que nem louco, mas hoje em dia eu tiro 80mls! Por isso ando ainda meio exausta, mas agora já faz duas semanas que o único leite que o Theo toma é o meu e isso me dá mais energia. Continuo tendo que usar o canudinho para o Theo, ainda tenho o meu pequeno arsenal de amamentação na cozinha (vidrinhos, sondas, esterilizadores…) mas agora estou mais alegre porque a produção de leite tem ganhado de longe a de lágrimas. Fiz as pazes com a natureza. Pensei aqui comigo que a natureza inventou o homem, e o homem o leite de fórmula. O homem inventou a teimosia. O homem inventou que quando a natureza não der conta, ele vai insistir até que ela dê.

Diálogos com Theo

Pra quem falava tão pouco e pensava que o filho ia demorar dois anos pra começar a falar, me orgulha que Theo já seja tão tagarela. Acho que  foram as canções de ninar ou as canções que a gente vai inventando quando as de ninar já se cansam de ser repetidas. Só sei que depois que ele nasceu tem se falado pelos cotovelos aqui em casa.

Quarto ao lado

Dormir ou não dormir com o bebê no mesmo quarto? Pra mim seria tão surreal dormir longe do bebê quanto levar o namorado que você acabou de se apaixonar pra sua casa e pedir para por favor ele dormir no quarto ao lado. Fora aquela aflição clássica de mãe recém nascida que acorda de cinco em cinco minutos pra saber se o bebê ainda respira, é um amor tão novo que não queremos desgrudar. Depois de um tempo, de vez em quando, até rola de  deixar ele lá do outro lado da parede, principalmente quando a avó está dormindo junto. Mas por enquanto ele ainda dorme com a gente. Na mesma cama dizem que é perigoso. A gente tem o colchão no chão, o Theo também. É só emparelhar e tá feito. E de repente quando você volta do banheiro dá de cara com esta cena, pai e filho dormindo na mesmíssima posição. Como diria a minha avó, sangue não é água.