Quase nada

O quarto do Theo não foi sempre dele. Antes de tudo, foi nosso. Era o quarto menor de um apartamento pequeno. Eu achava que para o que a gente tinha que fazer lá dentro estava de bom tamanho. Foi um ninho sensacional e chegou a ser cenário do trabalho que eu mais gosto: a videodança insomne. O quarto grande era escritório, sala de alongamento, sala de reunião e quarto de hóspedes. Um dia a gente resolveu trocar, e o quarto pequeno começou a receber os agregados. Como não vivo na cidade onde me criei, ter um quarto de hóspedes é um luxo necessário. Quando sua família e os seus amigos chegam, é só com eles dormindo no quarto ao lado que se consegue matar a saudade de jeito. A lista de gente que morou um pouquinho com a gente é imensa, e como foi bom ter os amigos dormindo em casa de novo, como quando a gente é criança e adolescente. Desde o dia 19 de janeiro temos um hóspede permanente, e embora ele ainda não passe de 70cm ocupa um espaço danado. Lembro que a minha atividade principal quando fiquei grávida era jogar coisas fora. Dei metade das minhas roupas, me livrei de quilos de papel, eliminei toda espécie de quinquilharia e doei a bicama que me acompanhou por pelo menos vinte anos. Depois de tanto desapego, o quarto pequeno de repente ficou imenso. Aquele tanto de espaço vazio me fez sentir luxuosa. Não tinha ouro, não tinha lustre de cristal, nem cadeira Charles Eames. Riqueza mesmo é ter espaço. Aí, depois de meses na indecisão de como montar o quarto do bebê, resolvi que tudo que o Theo tinha que ter era espaço. Espaço pra brincar, pra rolar no chão, pra montar cabana, pra trazer os amigos. E o quarto do Theo, quando não está bagunçado, ficou assim.

É engraçado, olhando na foto parece que não deu trabalho nenhum, um quarto com quase nada dentro. Mas fora os neurônios queimados, as centenas de horas de internet navegadas (foi em uma dessas que descobri Maria Montessori e o quarto sem berço), quase tudo que tem dentro fomos nós que fizemos.

Lembro da cara de espanto da moça da aula de costura quando cheguei lá com um barrigão de oito meses. Deu tempo. Com a máquina de costura de quarenta anos da minha mãe, fiz as cortinas, o porta-treco do trocador e as capas para o chão de E.V.A.

Construímos a estrutura do mosqueteiro, o espelho (é de acrílico, colado em chapa de MDF, falta furar a parede e fixá-lo) e até o trocador foi desenhado por nós e pelo meu pai (ele fabricou na marcenaria).

A cadeira de amamentação é a mesma que a minha mãe me amamentou e o armário é herança do proprietário do apartamento, só trocamos os puxadores por estes que minha mãe presenteou. No mais, um colchão de berço no chão e um futon vermelho que desenrola e vira cama de solteiro. É nele que o Theo já aprende a dividir o quarto com os outros hóspedes, afinal a família e os amigos são mesmo indispensáveis para a alegria desta casa.

O parquinho do Theo

O Theo anda meio bravo porque embora seja profissional em virar de bruço, ainda não consegue engatinhar. Faz uma força danada, levanta o bumbum, esfrega a cara no chão, puxa uma perna, puxa outra, paga flexão de braço, até que, exausto, golfa, desvira e começa a chorar. Aí eu pego no colo, danço um xaxado e ele acalma. Mas os bebês são obstinados, é só botar no chão de novo e lá vai ele: vira de bruço, levanta o bumbum, esfrega a cara no chão, paga flexão de braço, puxa uma perna, puxa a outra, golfa, desvira, chora até chegar no colo de novo. Mas Theo acabou de entrar na categoria peso-chumbinho, e no colo não dá mais pra ficar. Boto no chão de novo e lá vai ele… Aí exausta, sem ninguém pra me pegar no colo, invento uma atividade nova: o-tecido- rock-and-roll. Deita-se o bebê, elege-se um tecido, mistura os dois e shake! shake! shake! Embrulha o Theo… e descobre o Theo. A velha brincadeira do “Achoooou!” Mas um pouco mais hard core. E assim  lá se vão uma porção de minutos, o bebê agita, chacoalha as pernas e os braços, sorri, gargalha e, satisfeito, deixa o sono chegar. Ligo pro marido que está viajando e dou o veredito: parquinho nunca mais, a gente vai levar o Theo é na loja de tecido.