Siga este bebê!

Outro dia li aqui um depoimento de uma moça queniana que, depois de passar a juventude na Inglaterra, voltou para sua terra natal para ter seu neném perto da família. Ela estava com quatro meses de gestação e já tinha lido pilhas de livro sobre como criar seu filho.  Ao conversar sobre esta preparação toda com sua avó, esta respondeu com tom ironico: – a única coisa você tem que que ler é o seu bebê.

Taí, de tudo que eu li na minha preparação, o mandamento que mais lateja na minha cabeça é a frase de Maria Montessori: FOLLOW YOUR CHILD.  Siga sua criança. Observe muito, perceba seu filho, e tente proporcionar atividades que façam os pequenos vibrarem.

Com oito meses o Theo aprendeu a escalar o sofá, soltou urros de alegria e começou a querer se levantar apoiando-se em tudo o que via na frente, inclusive a gente. Daí começamos a botar pilha. Algumas mudanças, como a barra no corredor totalmente “faça você mesmo” e o móvel na altura do Theo em seu quarto eu já mostrei neste post.

Mas depois veio a idéia de ficar de pé também na hora do banho! Aposentamos o banheirão alto, de fundo mole e instalamos uma barra na área do chuveiro. Combinado com uma simples banheirinha de plástico, o banho, que andava meio chato, virou a atividade mais legal do dia. Sucesso total.

A fora isso, deixamos ele fazer de suporte tudo o que ele foi encontrando no caminho:

As esculturas do Antony Gormley no Centro Cultural Banco do Brasil:

O emaranhado de cadeiras na casa da vovó:

E repetindo a foto do post anterior, a barra de segurança do mirante da nossa rua.

E de repente me vejo contente ao repetir um legado dos meus pais, que nos deram uma educação mais que libertária: nos ajudaram a identificar nossos gostos e não pouparam energia para nos transformar, eu e meu irmão, em nós mesmos.

De pé

O último mês foi estranho, o ar andou esquisito e o tempo bipolar. As viroses invadiram a casa: um resfriado eterno insistiu em atrapalhar o sono do Theo, depois atacaram o intestino do bichinho e depois o meu também. Fiquei sem forças. A história de morar longe da família fez do meu coração um picadinho. Minha mãe ainda mais longe, trabalhando em Frankfurt e o marido viajando em Manaus e Porto Alegre. Sete dias de solidão do Apoque ao Chuí. Semana Hard Times. Agora tá tudo bem. Theo completou nove meses, o tempo de uma gestação. Tá novinho em folha e ainda de saldo, desenvolveu a maravilhosa habilidade de ficar de pé. Ele caiu incontáveis vezes, nariz, orelha, cucuruco: todos ao chão. Mas não parou de tentar, e escalou absolutamente tudo o que viu na frente. Sobrevivemos, nenhum nariz quebrado e as pernas mais fortes. Continuamos…

Mutações

Todo mundo me diz pra aproveitar porque passa rápido. Fico pensando se tempo de bebê é diferente, se eles roubam alguns segundos dos minuto, se pulam as horas ímpares ou se turbinam a corda dos ponteiros. Pode ser que sim, vindo de bebês não é de se duvidar, eles tem lá certos poderes mágicos. Vejam o Theo: foi ontem que aprendeu a rastejar, tinha seis meses. Agora nem completou oito e já quer ficar de pé, ensaiando com as pernas os primeiros passos. Poderes mágicos, certamente. Talvez esteja aí a impressão da velocidade do tempo, na estoneante capacidade que os bebês têm de mudar, de aprender, e de mudar de novo. Eles fazem uma revolução por semana, brincando. E aí vem a delícia e a dificuldade de ser pai e mãe, ser capaz de ir mudando junto, nesta velocidade louca. Por isso é que ser mãe cansa: quando a gente estabelece um esquema que funciona para o filhote, duas semanas depois ele já está obsoleto. Aí é botar a cuca pra funcionar e desapegar. Nesta semana que passou foram dias de ir atrás dos materiais certos e botar as mãos à obra. O mais difícil foi manter o neném longe da furadeira.

As últimas mutações aqui de casa:

1. O corredor que já era nossa biblioteca e galeria de arte (o apê tem 62m2 e a gente se vira nos trinta pra fazer caber tudo que a gente ama), é agora também área de exercício. Ganhou uma barra para o Theo brincar, do tamanho da mãozinha dele. Ele segura firme e pode andar que nem caranguejo de um lado pro outro. Foi o projeto mais simples e barato da casa: dois suportes de cortina, uma barra de madeira da loja de material de construções, quatro furos na parede, e barbante pra fixar a barra no suporte. Tá feito.

2.  O trocador estava virando um lugar perigoso: era botar o Theo lá pra ele querer virar, engatinhar e sair rolando. Trocar fralda tinha virado missão impossível. Agora a gente troca o Theo no colchãozinho no chão. Ainda é difícil, mas agora dá pra deixar ele solto e botar a fralda com ele rastejando. O trocador se transformou então em uma mesa e uma estante, numa altura bacana pro Theo se apoiar e praticar suas novas conquistas. O móvel mutante foi desenhado com a ajuda do meu pai, e construído por ele. É tão raro que as teorias que tecemos antes do neném chegar dêem certo na prática, que estamos muito felizes que o Theo tenha adorado a idéia.