Já me sinto melhor em 2013

Janeiro é um mês que costumo me sentir muito bem, me sinto a cima de tudo despressurizada. Dezembro é uma garrafa de champagne que não pára de agitar. É muito festejo,  pedidos a fazer, ceia pra inventar, ciclos para encerrar, tanta coisa pra executar, que no fundo no fundo, dezembro é um poço de pressão. A cidade enlouquece, e a gente junto. Os neurônios não param de borbulhar pensando nos desejos para o ano que vem, enquanto o corpo vai seguindo os rituais das festas e as listas inesgostáveis de ítens a fazer e a comprar. Por isso adoro a passagem de ano novo: estourar rolha, meter o pé na porta, pular as sete ondas, jogar os braços para cima e gritar a pleno pulmões. Arrebenta logo 2013! Me deixe  de ressaca, mas me deixe voltar a viver normalmente! Sobrevivemos a mais um fim de ano, desta vez com um gostinho especial, pois sobrevivemos também ao fim do mundo (quem teve um 2012 fácil por favor levante a mão, ainda não encontrei ninguém). Nós passamos o ano  vendo os fogos na praia de Copacabana e dos amigos que estavam ali na orla, ganhei três uvas na minha taça, cada uma para um pedido. Eu dividi elas com o Theo. Ele provavelmente deve ter pensado:

1. Quero poder mexer nos potes de louça, nos fios do computador, e nos baldes cheios de água da faxina

2. Quero que toda a água seja de côco

3. Quero tomar banho de mangueira sozinho no quintal por uma tarde inteira

Eu pedi:

1. Um ano com muito mais amigos por perto, não só nos domingos e feriados, mas nas terças, quintas e quartas.

2. Um ano que na balança final, a gente tenha feito mais do que pensado.

3. Um ano com a saúde em dia, o amor em alta e se possível, com dim dim pro dia a dia

E pra coroar a leveza que janeiro sempre trás, compartilho uma animação sensasional: simples, bonita, com boa música e com ótimas dicas para 2013.

Licenças

Quando a gente ganha o direito à licença maternidade a gente perde na mesma hora  a licença de andar-por-aí-ao-léu, a licença chegar-na-praia-depois-das-dez, a licença dormir-no-vagão-e-perder-a estação-do-metrô, a licença sentar-no-banco-da-praça-e-ficar-desenhando-a-vida-passar. Não vai soar muito bem, mas os dois primeiros meses de Theo tiveram jeitinho de prisão domiciliar, saída mesmo só para banho de sol no quarteirão.  A sorte é que antes do Theo chegar a gente deu um talento aqui no ninho, pintei, arranquei um tanto de quadro da parede, troquei de sofá (aliás, acho que ter um sofá verdadeiramente confortável é sinal de que você finalmente virou gente grande), plantei manjericão, tomilho e hortelã. São tempos de ficar em casa. Longos dias e noites em vigília. Mas aí um dia você acorda incrivelmente bem disposta porque dormiu quatro horas seguidas, arma o carrinho de bebê que você ainda não sabe mexer direito, desce a imensa ladeira que é toda a sua rua e chega sã e salva no sábado de manhã da feira mais gostosa do bairro. Compra peixe, duas mangas come um pastel de queijo e toma uma água de côco, e a sensação que fica é que você foi a Paris de tão fresca e renovada que sua cuca volta pra casa. E com a certeza que a única licença que não dá para abrir nestes tempos é a licença poética.

Cada um no seu quadrado

Ter bebê aos trinta anos quer dizer ter um monte de amigas tendo bebê ao mesmo tempo. Quer dizer também ter um monte de amigas pensando em ter bebê ao mesmo tempo. Seria perfeito se todas morássemos na mesma rua e pudéssemos dividir um pouquinho a enxurrada das dúvidas que atravessam nossos dias (e longas noites). Eu mudei de cidade, tem amiga que mudou de país, tem amiga que está no bairro ao lado, mas a real é que com recém-nascido dia e noite exigindo toda a nossa atenção até a amiga mais próxima parece estar em outra dimensão. Então vou escrever um pouquinho, de manhã que é a hora que mesmo exausta não consigo dormir, pra tentar conectar esta gente querida que anda longe.

A vida em TECHNICOLOR

Depois de 29 anos achando que pintar as unhas era bobagem de mulherzinha, descobri nos vidros de esmalte a mesma alegria de brincar com a caixa de lápis de cor. Agora fico andando por aí, fazendo papel de doida a fotografar a própria a mão, me divertindo em descobrir que o verde que me pareceu tão estranho no Rio, em Firenze é quase a cor oficial. E que nome de esmalte pode ser brega, mas tem hora que combina: bordeaux intenso chic, Paris by colorama.

 

A tiracolo

Quando era adolescente eu ganhei um ídolo emprestado do meu irmão. Não foi pouca coisa não, foi o Jimi Hendrix. Em casa, o André podia passar todo um, dois, três dias ouvindo a mesma música até ele mesmo conseguir tocar os solos alucinados na sua fender stratocaster, mesmo modelo que o Jimi usava. O volume era alto, e eu no quarto do lado não tive escolha, tive que me apropriar do ídolo. Fui  me impregnando de Little Wing, Stone Free e Voodoo Child e comecei entrar na brincadeira. Desafinada que sou, ficava colorindo os encartes das fitas K7s, desenhava com canetinha imitando as fontes psicodélicas do Flower Power, decorava as letras das musicas e assistia todos os documentários em VHS que aparecia lá nas tardes de casa. Em um desses filmes que reconstituíam a biografia do Jimi, lembro de um depoimento que me marcou profundamente. Um amigo dele contava que nunca tinha visto o Jimi sem sua guitarra a tiracolo. Podia ser jantar, noitada, passeio na calçada. A guitarra estava sempre a mão: ou estava tocando ou estava na iminência de tocar. Sempre a guitarra a tiracolo. Até que um dia, em agosto de 1970, ele encontrou o Jimi numa festa, sozinho, de mãos vazias, sem sua guitarra por perto. Alguma coisa estava errada. Um mês depois Jimi Hendrix morreu asfixiado com o próprio vômito em uma crise de overdose.

Eu não entendo muito de música, sei mal e porcamente tocar cinco canções no violão, nenhuma com mais de quatro acordes, mas esta história me emociona. Não consigo pensar em imagem mais bonita do que aquele homem existindo abraçado a sua guitarra, não consigo pensar em um objeto mais bonito do aquela faixa de pano colorida a tiracolo que os conectava. Eu queria aquilo pra mim, queria ter esta devoção, esta paixão imensurável. Jimi Hendrix sem guitarra já não existia mais.

Anos mais tarde fui fazer cinema, entrei na faculdade, comecei a fotografar e fiz de tudo pra estabelecer o mesmo tipo de relação com a minha câmera. Como eu queria fazer fotos lindas! Lia, estudava, sonhava. Mas não rolava. Em fases mais disciplinadas até que ficamos mais próximas, mas não chegamos a nos apaixonar. As fotos eram bonitas, mas nunca achei que alguma prestava para alguma coisa. Até que 2011 chegou. Não sei bem o que aconteceu, se é o retorno de Saturno, a chegada nos 30, as metamorfoses do último ano, o livro de criatividade quântica, mas estou sentindo mais, me emocionando mais, e daí preciso da minha câmera, preciso registrar, para os outros, para mim, a alegria que atravessa meus olhos. Uma foto é um sentimento, e quando ele vem a gente quer guardar.