Licenças

Quando a gente ganha o direito à licença maternidade a gente perde na mesma hora  a licença de andar-por-aí-ao-léu, a licença chegar-na-praia-depois-das-dez, a licença dormir-no-vagão-e-perder-a estação-do-metrô, a licença sentar-no-banco-da-praça-e-ficar-desenhando-a-vida-passar. Não vai soar muito bem, mas os dois primeiros meses de Theo tiveram jeitinho de prisão domiciliar, saída mesmo só para banho de sol no quarteirão.  A sorte é que antes do Theo chegar a gente deu um talento aqui no ninho, pintei, arranquei um tanto de quadro da parede, troquei de sofá (aliás, acho que ter um sofá verdadeiramente confortável é sinal de que você finalmente virou gente grande), plantei manjericão, tomilho e hortelã. São tempos de ficar em casa. Longos dias e noites em vigília. Mas aí um dia você acorda incrivelmente bem disposta porque dormiu quatro horas seguidas, arma o carrinho de bebê que você ainda não sabe mexer direito, desce a imensa ladeira que é toda a sua rua e chega sã e salva no sábado de manhã da feira mais gostosa do bairro. Compra peixe, duas mangas come um pastel de queijo e toma uma água de côco, e a sensação que fica é que você foi a Paris de tão fresca e renovada que sua cuca volta pra casa. E com a certeza que a única licença que não dá para abrir nestes tempos é a licença poética.